
Ó nuvens desse rio,
Onde vais descarregar?
No cais ou num navio
Que corre tão devagar?
Vais por estrelas e mares
Que gritam e ferem ouvidos,
Não vás por aqueles oceanos
Onde crescem barcos esquecidos.
Barcos de sonho à vela,
Içada com cabelos de chuva,
Não quero ser uma ruela
A vaguear com pés de luva.
Não queres ser barco,
Não queres ser navio?
Foste condenado ao charco
De um rio já perdido
Quase perdido
Quase correu
Não existe, esse navio,
Por isso é que não morreu.
Navega nuvem, navega!
Navega nesta mentira,
Por rios que já morreram
E em barcos que se perderam.
Perderam-se barcos,
Perderam-se…
Inventaram-se barcos,
Nalguma alma nua
Que se veste e enfeitaComo a face de uma lua

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